sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Pe. Federico Lombardi analisa os primeiros seis meses de Pontificado de Francisco

O Papa Francisco completa esta sexta-feira seis meses de Pontificado.
Eleito no Conclave em 13 de março, a Missa de início de Pontificado foi em 19 de março. A Rádio Vaticano entrevistou seu Diretor-Geral, Pe. Federico Lombardi, que também é Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé.
RV: Padre Lombardi, para usar o método do Papa Francisco: quais são as três principais novidades deste pontificado?
R: “Eu diria que a primeira novidade é o nome, que me tocou desde o início: Francisco, um nome certamente novo; nenhum Papa antes dele o havia usado. E, com o nome de Francisco, existe a sua explicação, dada pelo próprio Papa: “pobres, paz, custódia da Criação”. E temos já visto – ao menos sobre pobres e a paz – que verdadeiramente são marcas fundamentais deste Pontificado. Também de extrema atualidade, como nas últimas semanas, este empenho extremamente corajoso pela paz no Oriente Médio. Após, uma segunda novidade me parece ser o fim do eurocentrismo da Igreja, isto é, o fato de que temos um Papa latino-americano. Na realidade, isto se vê num sentido positivo, de ampliação dos horizontes: vimos isto em particular no decorrer da Jornada Mundial da Juventude, em que vimos o Papa no seu continente de proveniência e aprendemos que também seu estilo é pastoral, o seu modo de relacionar-se direto, com as pessoas, a sua linguagem muito simples...Também os seus temas de atenção à pobreza e assim por diante, vem de um contexto eclesial muito rico, com uma grande tradição, que agora vem ao coração da Igreja com uma força e uma presença maior. Todos os Papas foram “universais”, foram Papas que tiveram o mundo no coração, então, não é que fossem “parciais”. Porém, eu acredito que se percebe o fato que a escolha de um Papa que vem de outro continente, efetivamente traz alguma coisa de específico no estilo, na perspectiva e é alguma coisa desejada pela Igreja universal, desejado pelos Cardeais e nós apreciamos isto, como um enriquecimento ulterior no caminho da Igreja universal. Depois, se devo dizer uma terceira característica, me parece aquela de missionaridade. O Papa Francisco fala muito de uma Igreja não auto-referencial, de uma Igreja de missão, de uma Igreja que olha para além de si mesma e a todo o mundo. A mim, veio em mente a belíssima Carta de João Paulo II no final do Jubileu, Duc in altum, dirigida à Igreja do terceiro milênio. Assim, me parece que efetivamente, com o Papa Francisco, a barca da Igreja esteja viajando, sem medo, antes, com alegria de poder encontrar o mistério de Deus em novos horizontes”.
RV: O Papa está despertando muito os cristãos, às vezes também com palava fortes, e está aproximando muito os distantes....
R: “Sim…Digamos que o seu estilo, a linguagem direta do Papa, as suas atitudes, também as novidades do seu estilo de vida, tocam em profundidade e suscitam um grande interesse, um grande entusiasmo. Eu, porém, acredito e espero que o motivo fundamental deste interesse seja profundo, seja o fato de que o Papa insiste muitíssimo sobre um Deus que ama, um Deus de misericórdia, um Deus sempre pronto a perdoar a quem se dirige a Ele com humildade. E com isto, me parece que toque o homem em profundidade – o homem, as mulheres do nosso tempo – que ele sabe o quanto, frequentemente, são feridos: são feridos por tantas experiências difíceis, por tantas frustrações, por tantas injustiças, por tanta pobreza e marginalização no mundo de hoje. Assim, então, este falar com tanta eficiência e este saber comunicar também através das palavras e dos gestos, em modo assim direto, que o amor de Deus é para todos, e a proximidade, o interesse humano, a ternura – é uma outra palavra entre aquelas que agradam muito a este Papa e que são a expressão do seu modo de ser – seja qualquer coisa que toque e mova em profundidade as pessoas, todas: crentes e não crentes. Porque todas as pessoas humanas são amadas por Deus, são verdadeiramente as pessoas a quem é dirigida esta grande mensagem do amor de Deus e do amor de Cristo. Então, para todas, fala quando é dito na sua verdade, na sua concretude e na sua proximidade ao coração do homem”.
RV: Este pontificado está suscitando grandes expectativas. O que devemos esperar nos próximos meses?
R: “Bem… eu não sou um profeta. Sabemos, para falar de coisas muito simples, que o Papa nos próximos meses tratará de temas que dizem respeito ao governo da Igreja, consultando os seus colaboradores: quer os colaboradores da Cúria Romana, como fez nos dias passados, quer os Cardeais, como fará também no mês de outubro, com os Cardeais que ele escolheu e que vem de diversas partes do mundo. Porém, honestamente, eu não gostaria que se supervalorizasse o aspecto da reforma de estrutura, que diz respeito um pouco à instituição. O que conta é o coração da reforma perene da vida da Igreja e neste sentido Papa Francisco, certamente, com o exemplo, com a sua espiritualidade, com a sua atitude de humildade e de proximidade, quer tornar-nos próximos a Jesus, quer dar-nos uma Igreja que caminha próxima à humanidade de hoje, em particular à humanidade que sofre e que mais tem necessidade da manifestação do amor de Deus. Então, esta Igreja a caminho, capaz de ser solidária, acompanha a humanidade que caminha. Isto, eu acredito, nós podemos e devemos esperar através de tantos sinais, tantas decisões. Nestas últimas semanas tivemos a grande temática da paz, por quem sofre das tensões e das guerras, mas podemos ter tantas outras: temos o tema da proximidade aos refugiados, da proximidade às diversas formas de marginalização e assim por diante. Assim, deixemos que o Senhor nos conduza. O Papa não é alguém que pensa ter em mãos a projeção organizativa da história. O Papa é uma pessoa que escuta o Espírito do Senhor e procura segui-Lo com docilidade, e neste sentido nos leva sobre um caminho que é sempre novo e que nós sejamos convencidos de que seja belo, que seja de esperança”.
RV: Como é a coexistência do Papa Francisco e do Papa Emérito Bento XVI, no Vaticano?
R: “Ah, prossegue muito bem, prossegue perfeitamente. Eu diria que estamos todos contentes – a começar pelo Papa Francisco – da presença do Papa Emérito no Vaticano, com a sua discrição, com a sua espiritualidade, com a sua oração, com a sua atenção. É exatamente aquilo que ele havia prometido, tinha anunciado isto por ocasião da sua renuncia: continuar a estar no caminho com a Igreja, mas mais na forma da oração, da oferta da própria vida, da proximidade espiritual, antes que aquela da presença, digamos assim, operativa. Ao mesmo tempo sabemos que existe também uma relação pessoal, extremamente cordial entre o Papa Francisco e o seu predecessor; houve alguns momentos simbólicos em que o vimos: quando o Papa Francisco o convidou para a belíssima cerimônia nos Jardins Vaticanos para inaugurar um novo monumento, mas mais significativa ainda quando o Papa Francisco foi encontrá-lo antes de partir em viagem ao Brasil, para pedir a sua oração, a sua proximidade, o seu apoio durante aquele momento assim importante; e depois, quando voltou a encontrá-lo após o retorno, para contar a ele a bela experiência desta viagem, agradecê-lo pela sua proximidade na oração. Também eu tive a alegria de poder estar perto do Papa Bento e ver a sua serenidade, a sua fé, a sua espiritualidade, a sua afabilidade extraordinária que nos testemunhou tanto durante o tempo do seu Pontificado e que continua, mesmo se agora nesta forma nova e mais discreta, a caracterizá-lo. Eu acredito que nós sentimos, mesmo se não o vemos frequentemente, sentimos a presença do seu afeto, da sua oração, da sua sabedoria e do seu conselho, que certamente está sempre à disposição também do seu sucessor, quando o pede”.
RV: Como mudou o trabalho do Porta-voz do Papa nestes seis meses?
R: “Mas….eu sempre disse que eu não sou tanto o Porta-voz do Papa, como Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé que faz um humilde serviço de colocar à disposição as informações, os textos e as respostas para compreender bem aquilo que o Papa diz e faz. Honestamente, me parece que nestes seis meses de Pontificado do Papa Francisco, o Papa tenha feito e falado de um modo tão intenso, que eu, efetivamente – por sorte –, pude estar na sombra em relação àquele que é o protagonista, a voz principal que os fiéis querem escutar, que é a do Papa. Assim, o serviço continua a ser o mesmo: aquele de ajudar o ministério do Papa para o serviço do Povo de Deus, e este porém é um tempo em que a palavra do Papa é muito clara, concreta, bem acolhida, os seus gestos são muito intensos, muito freqüentes...Assim, digamos assim: tem muito a ser feito para segui-lo, mas fala por si mesmo”. (JE)

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