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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

É preciso perder o medo de errar; O humilde não tem medo de errar


Quem se reconhece e se aceita, quem é humilde, não tem medo de errar. Por quê? Porque se, depois de ponderar, prudentemente, a sua decisão, ainda cometer um erro, isso não o surpreenderá, pois sabe que é próprio da sua condição limitada. São Francisco de Sales dizia de uma forma muito expressiva: “Por que se surpreender que a miséria seja miserável?”.

Lembro-me ainda daquele dia em que subia a encosta da Perdizes, lá em São Paulo, para dar a minha primeira aula na Faculdade Paulista de Direito, da PUC (Pontifícia Universidade Católica). Ia virando e revirando as matérias, repetindo conceitos e ideias. Estava nervoso; não sabia que impressão causariam as minhas palavras naqueles alunos de rosto desconhecido. E se me fizessem alguma pergunta a qual eu não saberia responder? E se, no meio da exposição, eu esquecesse a sequência de ideias?

Entrei na sala de aula tenso, com um sorriso artificial. Comecei a falar. Estava excessivamente pendente do que dizia, nem olhava para a cara dos alunos. Falei quarenta e cinco minutos seguidos sem interrupção, sem consultar uma nota sequer.


Percebi, porém, um certo distanciamento da “turma”, um certo respeito. Um rapaz, muito comunicativo e inteligente, talvez para superar a distância criada entre o grupo e o professor, aproximou-se e me cumprimentou: “Parabéns, professor. Que memória! Não consultou, em nenhum momento, os seus apontamentos. Foi muito interessante!"

Respirei, mas, desconfiado, quis saber: "Você entendeu o que eu disse?" Admirou-se com a minha pergunta; não a esperava. Sorrindo, encabulado, confessou-me: "Entendi muito pouco, e, pelo que pude observar, a 'turma' entendeu menos ainda".

A lição estava clara: "Dei a aula para mim e não para eles. Dei a aula para demonstrar que estava capacitado, mas não para ensinar”. Faltara descontração, didática, empatia; não fizera nenhuma pausa, nenhuma pergunta. Fora tudo academicamente perfeito, como um belo cadáver. Fora um fracasso.

Lembro-me também que, quando descia aquela encosta, fiz o propósito de tentar ser mais humilde, de preparar um esquema mais simples, de perder o medo de errar, esse medo que me deixara tão tenso e tão cansado; de pensar mais nos meus alunos e menos na imagem que eles pudessem fazer de mim. E se me fizessem uma pergunta a qual não soubesse responder, o que diria? Pois bem, diria a verdade, que precisava estudar a questão com mais calma e, na próxima aula, lhes responderia. Tão simples assim.

Que tranquilidade a minha ao subir a encosta no dia seguinte! E que agradecimento dos alunos ao verem a minha atitude mais solta, mais desinibida, mais simpática! Uma lição que tive de reaprender muitas vezes ao longo da minha vida de professor e de sacerdote: a simplicidade, a transparência e a espontaneidade são o melhor remédio para a tensão e a timidez e o recurso mais eficaz para que as nossas palavras e os nossos desejos de fazer o bem tenham eco. 

Não olhemos as pupilas alheias como se fossem um espelho, no qual se reflete a nossa própria imagem; não estejamos pendentes da resposta que esse espelho possa dar às perguntas que a nossa vaidade formula continuamente: "O que é que você pensa de mim? Gostou da colocação que fiz?" Tudo isso é raquítico, decadente, cheira ao mofo do próprio "eu", imobiliza e retrai, inibe e tranca a espontaneidade. Percamos o medo de errar e erraremos menos.

Texto: Dom Rafael Llano Cifuentes

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O sacramento do Matrimônio: Uma via de Santidade

O sacramento do Matrimônio e o da Ordem são chamados sacramentos a serviço da comunhão e da missão, por conferirem uma graça especial para a missão particular na Igreja com relação à edificação do povo de Deus, contribuindo em especial para a comunhão eclesial e para a salvação dos outros. O homem e a mulher foram criados por Deus com uma igual dignidade como pessoas humanas e, ao mesmo tempo, numa complementaridade recíproca como masculino e feminino. Deus quis que fossem um para o outro, para uma comunhão de pessoas. Juntos são também chamados a transmitir a vida humana, formando no matrimônio uma só carne (cf. Gn 2, 24).
O Matrimônio participa desta dinâmica de serviço para a santificação. O Senhor, que é amor e criou o homem por amor, chamou-o a amar. Ao criar o homem e a mulher, chamou-os, no Matrimônio, a uma íntima comunhão de vida e de amor entre si, de modo que já não são dois, mas uma só carne (cf. Mt 19,6). Abençoando-os, Deus disse-lhes que fossem fecundos e se multiplicassem (cf. Gn 1,28).
Esse sacramento se realiza diante de uma promessa entre um homem e uma mulher, prestada diante de Deus e da Igreja, aceita e selada pelo Senhor e concluída pela união corporal do casal. Porque é o próprio Altíssimo quem dá o laço do Matrimônio sacramental e o mantém unido até a morte de um dos consortes. São necessários três elementos para a realização do Matrimônio: o consentimento, a concordância com uma união por toda a vida e apenas com o consorte, e por fim, a abertura aos filhos. Sendo a mais profunda a consciência do casal de que são uma imagem viva do amor entre Cristo e a Igreja.
O sacramento do Matrimônio gera entre os cônjuges um vínculo perpétuo e exclusivo. O próprio Deus sela o consentimento dos esposos. Primeiro, porque corresponde à essência do amor se entregar mutuamente sem reservas. Depois, porque ele é imagem da incondicional fidelidade de Deus à Sua criação. Finalmente, porque ele representa a entrega de Cristo à sua Igreja até à morte de cruz.
Portanto, o Matrimônio concluído e consumado entre batizados não pode ser dissolvido. Esse sacramento confere também aos esposos a graça necessária para alcançar a santidade na vida conjugal e para o acolhimento responsável dos filhos e a sua educação. A união matrimonial é, muitas vezes, ameaçada pela discórdia e pela infidelidade por causa do  pecado original, que provocou também a ruptura da comunhão do homem e da mulher, dada pelo Criador. Todavia Deus, na Sua infinita misericórdia, dá ao homem e à mulher a Sua graça para que possam realizar a união das suas vidas segundo o desígnio originário d'Ele.

Fonte: Canção Nova



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O AMOR É O CUMPRIMENTO PERFEITO DA LEI


Jesus não poderia modificar aquilo que já existia na antiguidade, não poderia passar por cima da lei dos homens. O primeiro passo para ser respeitado e visto de fato como “O Messias”, o enviado por Deus e ligado diretamente a Ele, seria respeitar as leis dos homens. Infelizmente ai se encontra o grande erro do povo da época. Pois, o Messias esperado era imaginado como um revolucionário, anarquista, que viria para acabar com as leis e conceder a liberdade a todos àqueles que se encontravam escravizados. Não! Cristo supera as expectativas, mesmo diante da incompreensão da sociedade da época. A lei do amor é a lei máxima, a “lei áurea” do Cristianismo, e tem como objetivo libertar os homens. No entanto, ao que muitos não conseguem perceber existem sementes dela na lei dos homens! Mas como isso é possível?! Como algo que é perfeito como a lei do amor, pode ter ligação com a imperfeita lei dos homens?

Quando se fala em lei do amor, ou mandamento do amor, estamos abrangendo todos os sentimentos existentes. Logo, o respeito, entre tantas outras forma se tornam “o cumprimento perfeito da lei” (Rm 13,9-10). Ou ainda, ao respeitar as leis e andar em conformidade com elas, eu permaneço dentro do respeito e do amor à sociedade, sendo assim, existem “germes” de amor em minhas atitudes. É por isso que Jesus respeitou a lei, porque ele entendia a lei do amor como lei universal, entretanto, sabia que se não respeitasse a lei dos homens, o seu mandamento universal seria incoerente.

Quer dizer então que Jesus era submisso às leis dos homens? Não! Jesus era um entendedor de tais leis, mas sabia que a verdadeira lei, o amor, só existiria se houvesse uma harmonia entre as elas. Mas e no caso de não cumprir a lei no momento em que ele cura um doente no dia de sábado, ou na ocasião em que seus discípulos trabalham colhendo espigas de milho para comer também em dia de sábado, ou ainda podemos citar nas vezes em que seus discípulos não lavam as mãos antes de comer, isso era não descumprir as leis?

Jesus entendia o que era prioridade quando o assunto era cumprir leis, e o ser humano sempre foi uma delas. No caso da cura no dia de sábado, ele vai ao encontro do enfermo e o tira de sua condição porque sabe que não há nada maior e acima da lei do que a ajuda ao necessitado ou àquele que precisa de socorro. Sendo assim, não é errado dizer que amparar o desprovido ou proporcionar um encontro dele com Deus, é estar em concordância com a lei do amor e também com a lei dos homens, que mesmo com uma conotação farisaica previa o bem estar da sociedade. Da mesma forma com os outros casos. A lei dos homens deixa de ser prioridade quando alguém necessita da salvação ou de se reencontrar-se. 


Gabriel Calvi
Notário do TEIA